Hoje é o Dia do Orgasmo
Dia 31 de julho é o dia mundial do orgasmo. Aproveite para conferir esta matéria especial feita pela revista ELEELA que fala sobre a tecnologia do orgasmo. Acompanhe:
UMA REPORTAGEM EXCLUSIVA SOBRE AS PESQUISAS REVOLUCIONÁRIAS DA DRA. RACHEL MAINES, QUE RASTREOU A ANCESTRAL HISTÓRIA DOS VIBRADORES E OUTROS APARELHOS QUE, “DE REMÉDIOS PARA ALÍVIO DO FUROR UTERINO” PASSARAM A SER INSTRUMENTOS DO PRAZER
POR OSMAR FREITAS JR., EM ITHACA, ESTADO DE NOVA YORK
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Até 20 anos atrás, a Dra. Rachel P. Maines, 58, nunca tivera maiores intimidades com um vibrador. À época, ela pesquisava técnicas muito inocentes: como professora do Departamento de Ciência e Tecnologia de uma das mais renomadas instituições de ensino dos Estados Unidos, a Cornell University, em Ithaca, Estado de Nova York, a Dra. Maines detinha-se então num trabalho acadêmico sobre o tricô e o crochê como um dos processos de desenvolvimento tecnológico da humanidade. Ao penetrar e aprofundar-se em suas pesquisas, porém, algo chamou-lhe a atenção nos livros e nas revistas que lhe serviam de fontes históricas: o grande número de títulos e anúncios de vibradores e outros aparelhos destinados a promover o orgasmo feminino.
Deu-se então uma revolução em sua carreira: a Dra. Maines passou a estudar o que chamou de tecnologia do orgasmo. A princípio, suas teses mereceriam apenas o repúdio de seus colegas. Exatos 12 anos depois, seriam reunidas em um livro que conquistou o prêmio da Associação Histórica Americana, em 2000, e o prestigiado troféu de melhor livro científico de 2001 dado pela Fundação americana de Medicina Genital e de Gêneros: A Tecnologia do Orgasmo: Histeria, o Vibrador e a Satisfação Sexual das Mulheres. Até o cinema foi bater-lhe à porta para produzir um belo documentário (tema de reportagem de ELEELA nº 436), também premiado.
ELEELA falou com a Dra. Maines em seu escritório na Universidade de Cornell, e ela esclareceu que as agulhas de tricô de sua pesquisa anterior formaram um elo que resultou em seu livro famoso. “Uma quantidade enorme de anúncios de vibradores já apareciam nas páginas das revistas femininas e em catálogos desde 1899, especialmente em Modern Priscilla e Home Needlework Magazine. Guardei aquelas informações e fui colecionando mais. No fim de minha tese sobre o tricô, voltei meus estudos para os vibradores”, ela diz.
Foram 12 anos de pesquisas para transformar um artigo acadêmico, mal recebido no meio e altamente especulativo, em livro. Ela descreve aí vibradores ancestrais, quase mitológicos. Um exemplo? O vibrador a vapor! “Em 1869, um certo George Taylor registrou a patente do vibrador a vapor nos Estados Unidos. Chamava-se, apropriadamente, manipulador. Imagine uma máquina a vapor, de dimensões substanciais, que ficasse em uma sala à parte do consultório médico. A energia criada ali era transferida para um aparelho bem menor, que era empalmado pelo médico e aplicado à vulva da paciente. Era uma resposta aos clamores de médicos para mecanizar o tratamento do que se chamava de ‘histeria’, que era feito de modo manual”.
Ou seja, era pau na fornalha, no sentido figurado e ao pé da letra. Alguém ficava encarregado de jogar lenha no forno na outra sala enquanto o doutor suava em seu ofício – e tudo por causa do conceito de histeria. Segundo a doutora, até pouco mais de uma centena de anos atrás acreditava-se que histeria fosse uma doença crônica, que poderia ser aliviada por meio de manipulação vaginal.
Mas estaria ela sugerindo que histeria não existe?
“Não”, ela diz, contundente. “Estou afirmando. Desde Hipócrates, o pai da medicina e quem primeiro aplicou o termo mais de 2 milênios atrás, acreditava-se que histeria fossem os queixumes do útero negligenciado. Lembre-se que, para os antigos, não havia a diferenciação entre vulva e útero: era tudo a mesma coisa. Platão dizia que o útero era um animal dentro de outro animal – no caso, a mulher. O animalzinho interior saía fora de controle e tinha de ser apaziguado, do contrário, a mulher enlouqueceria com as birras do útero”.
O modo de acalmar esse bicho temperamental era a massagem na vulva, entendida como a boca do útero. Essa prática, ainda segundo os antigos, produziria uma crise da doença, ou seja: o paroxismo histérico, quando ocorreriam lubrificação e contrações na região estimulada. O resultado seria que, depois disso, as mulheres se sentiriam mais calmas e voltariam à paz mental. Até o próximo ataque. Por ser descrita como uma doença crônica, as recaídas ocorreriam múltiplas vezes.
Era um ótimo negócio para aqueles que ganhavam a vida manipulando vaginas – e freguesia garantida por muito tempo. “Não nos esqueçamos que era também trabalho árduo, cansativo. Um médico no século 19 disse que demorava uma hora manipulando cada paciente, o que dava uma freguesia diária de apenas oito mulheres numa jornada de trabalho. Ainda não se tinha noção da síndrome do movimento repetitivo, mas dá para fazer uma idéia do que o esforço do profissional causava às mãos, principalmente aos dedos. E na clientela havia de tudo, desde moças bonitas até senhoras muito idosas e ainda necessitadas de apaziguamento. Não havia como escolher o trabalho seguinte.”
Ou seja, o médico era mão para toda obra. E a categoria acabou por demandar modernização, o que estimulou a intervenção da tecnologia. Avanços efetivos nesse campo só viriam ser obtidos muito tempo depois. Em meados dos anos 1700, um relojoeiro suíço construiu um vibrador mecanizado – algo como um relógio, ou brinquedo a corda, com movimentos – a pedido de aristocratas franceses. Eram feitos sob encomenda, demorava-se muito para atender cada pedido, e as peças eram personalizadas, às vezes com pequenas pedras preciosas encrustradas. Era uma arte, guardada a sete chaves, e não foi massificada. Perdeu-se na história.
Os primeiros vibradores, portanto, eram jóias para porta-jóias exigentes. O salto do Iluminismo à Revolução Industrial no campo dos consolos se deu ainda pela demanda cada vez maior dos médicos, e houve uma corrida entre inventores para criar um produto ideal, menor, mais eficiente, mais barato etc. Foi só lá pelo fim do século 19 que as opções começaram a pipocar. “O vibrador tem a distinção de ter sido um dos primeiros aparelhos eletrodomésticos”, diz a Dra. Maines. “Um utilitário doméstico elétrico a surgir antes do aspirador, da cafeteira, do liquidificador e do ferro de passar”.
Até que chegasse a algum aperfeiçoamento utilizaram-se instrumentos rústicos, impraticáveis e até, francamente, perigosos. Um certo vibrador lançado no começo do século 20, por exemplo, prometia em seus anúncios prover até 30 mil vibrações por minuto. Teve grande aceitação, e um concorrente achou que o caminho para o sucesso era aumentar a velocidade para 50 mil vibrações, resultando em rompimento de tecidos da área e em pelo menos um caso de queimadura.
Os bons produtos acabaram por superar os defeituosos e sua popularidade se escancarou à medida que se adentrava o século 20. Os médicos passaram a atender muitos pacientes a mais. “Em alguns consultórios renomados”, diz a Dra. Maines, “havia verdadeiras linhas de montagem: várias camas com pacientes sendo manipuladas ao mesmo tempo num mesmo local. O ‘tratamento’, que durava uma hora na base manual, agora levava no máximo 10 minutos. Isso multiplicava por seis o número de pacientes atendidas”.
É interessante notar que as mulheres americanas, tão práticas e adeptas do faça-você-mesma, não arregaçaram as mangas para fazer justiça com as próprias mãos. “Lembre- se de que este sempre foi um país religioso”, diz a Dra. Maines, “e que masturbação é ainda hoje considerada um pecado. Já o ato de ir ao médico e receber um ‘tratamento’ para uma doença crônica era outra coisa. Em todo caso, a popularização dos vibradores foi irresistível: eles começaram a ser vendidos em catálogos da Sears, anunciados em revistas femininas inocentes, e a tendência acabou sendo a
de partir para soluções caseiras”.
Claro, os médicos, sempre ciosos de suas práticas, não recomendavam a auto-medicação. Perderiam a freguesia. Demorou um pouco para a explosão do faça-você-mesma. É possível que as mulheres que procuravam os médicos, e os próprios profissionais, não soubessem – ou não admitissem – que toda aquela história era um ato sexual? “A questão é que a maioria das mulheres realmente acreditava na história de histeria e achava que estava doente”, diz a Dra. Maines. “Outras – uma minoria – sabiam que a coisa era sexual e usavam o tratamento como forma de saciar suas necessidades, já que os maridos não cumpriam suas funções, ou elas não tinham maridos”.
Muitos médicos também sabiam perfeitamente o que estavam fazendo. Já num texto do século 18, um médico inglês de nome Nathaniel Hymore diz, basicamente: “chamem de paroxismo histérico, do que for, mas na verdade essa história é mesmo um orgasmo. E nossa missão é prover esse trabalho paras as mulheres. Do contrário, elas vão ficar doentes e se sentir muito mal”. Um outro médico, francês, dizia no século 19 que era importante fornecer esse tratamento, ainda que ele fosse sexual.
A maioria deles apelava para o diagnóstico de histeria, como havia sido desde a Idade Média. A onda só começou a se reverter depois de 1920, quando os vibradores começaram a aparecer nos primeiros filmes pornôs que o pós-guerra propiciou. Foi-se verificando que o negócio era mesmo puramente sexual. Com a melhor compreensão do corpo feminino e do orgasmo, muitos médicos foram discretamente aposentando suas práticas nessa área.
O livro da Dra. Maines foi transformado em filme e muito bem recebido pela crítica desde sua estréia, em abril de 2007, num festival de cinema nova-iorquino. A autora diz que nunca imaginou que isso pudesse acontecer. “Quando Wendy Slick e Emiko Omori, cineastas e professoras na Universidade de San Francisco, decidiram comprar os direitos, eu fiquei muito surpresa. E mais ainda quando me pagaram US$ 30 mil por direitos de adaptação. Era o triplo do que eu ganhara em direitos autorais com as vendas do livro em um ano”.
E, antes disso, a obra já servira como defesa de uma mulher acusada de imoralidade por vender vibradores no Estado do Arkansas. A Dra. Maines foi testemunha da defesa, mas, no final, o estado reiterou a sentença e proibiu a venda de vibradores. Uma das justificativas dadas para a proibição: se as mulheres fizerem sexo sozinhas, tornariam o homem inútil. “Um absurdo!”, diz a Dra. Maines. “Os vibradores não falam, não te abraçam, não têm alma. Os homens jamais ficarão obsoletos. O que se pune, na verdade, é a masturbação feminina. É pura ignorância, pois também não é necessário um vibrador para uma boa masturbação. Em 1975, o Estado do Alabama criminalizou as vendas de vibradores. Em 1998, jogaram uma vendedora ambulante na cadeia. Atualmente existem seis estados americanos que proíbem as vendas de aparelhos para estimulação sexual. Esses mesmos Estados são campeões de vendas de armas de fogo. Ou seja: nos Estados Unidos, é mais fácil comprar um rifle de assalto, um revólver calibre grosso, do que um vibrador de qualquer calibre”.
